Uma pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP) trouxe à tona 17 aspectos que podem estar inflacionando os valores do frete, principalmente em trajetos curtos e em operações com alta produtividade no transporte de grãos. O levantamento fortalece as reivindicações da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e outras entidades do setor para que a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) reavalie o cálculo do piso mínimo do frete.
O estudo foi apresentado no contexto da revisão da regulamentação que está sendo conduzida pela ANTT. As organizações do agro solicitam que a agência baseie seus cálculos nos custos efetivamente praticados pelas transportadoras brasileiras, e não mais em parâmetros desatualizados que não refletem a realidade das frotas e das operações no Brasil.
O trabalho foi desenvolvido pelo Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-Log), vinculada à USP. A equipe analisou diversos fatores como jornada de trabalho, consumo de combustível, idade dos caminhões, quantidade de eixos, retorno com carro vazio, depreciação dos veículos e produtividade das operações logísticas.
Um dos principais pontos críticos é a subutilização dos caminhões. Atualmente, o cálculo considera 181 horas mensais de trabalho para definir quanto dos custos fixos são distribuídos por viagem. Porém, os pesquisadores indicam que essa referência é baixa e sugere aumentar para 220 horas mensais, assim aumentando o uso dos veículos e do tempo legal do motorista.
Com essa mudança, despesas como depreciação, remuneração do capital e salários seriam diluídas em mais viagens, reduzindo o custo por quilômetro rodado. Essa alteração isolada poderia baixar em 7,6% o valor médio do piso mínimo do frete. No transporte de grãos, essa redução pode variar entre 6,38% e 11,04%, dependendo da distância e do tipo de caminhão.
Para exemplificar, se uma operação tem piso de R$ 10 mil, um desconto de 11% significaria economizar R$ 1,1 mil por viagem. Para empresas, cooperativas ou produtores que contratem cem viagens na safra, o impacto financeiro pode ultrapassar R$ 110 mil.
Essa diferença é especialmente relevante em regiões distantes dos portos, já que commodities como soja, milho e algodão percorrem longas distâncias até os pontos de exportação. Custos logísticos elevados afetam diretamente o preço recebido pelo produtor no local de origem.
Outro ponto questionado pelo estudo é a vida útil econômica dos caminhões, hoje fixada em sete anos para cálculo da depreciação. Conforme dados da própria ANTT, a idade média dos veículos de tração ativos no país é de 16,4 anos.
Ao usar um prazo curto para a depreciação, concentra-se a perda de valor em poucos anos, encarecendo cada viagem. Os pesquisadores propõem adotar a referência de 16 anos, o que poderia reduzir de 6% a 10% o custo do transporte de grãos, dependendo do trajeto e do tipo de caminhão.
O estudo da USP e as demandas do setor agropecuário evidenciam a necessidade urgente de revisão na metodologia do piso mínimo do frete, refletindo um cenário mais realista e justo para caminhoneiros, transportadoras e produtores rurais em Mato Grosso e em todo o Brasil.




