A pediatra Cláudia Boutros Carvalho, especialista no atendimento de bebês, levanta preocupações importantes sobre a forma como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) está sendo diagnosticado no Brasil. Durante participação no 1º Seminário Acolhe Clínica de Bebês em Cuiabá, a profissional explicou que existe um crescimento tanto real da condição quanto uma tendência preocupante de hiperdiagnóstico entre crianças.
Conforme a especialista, o problema vai além dos números. Muitas crianças recebem diagnósticos formais sem atender aos critérios técnicos adequados, resultando em laudos incorretos que afetam diretamente suas trajetórias de desenvolvimento. A situação torna-se ainda mais crítica quando se considera como esses diagnósticos impactam o acesso a serviços e recursos especializados.
Uma questão central levantada por Cláudia refere-se aos profissionais responsáveis pelos diagnósticos. No Brasil, neurologistas frequentemente emitem laudos após consultas breves, prática diferente da adotada em muitos países, onde psiquiatras são os responsáveis por essa avaliação. "É um horror. Em qualquer outro país, quem dá laudo de autismo é psiquiatra, e não neurologista. Uma criança passa 15 minutos com o neurologista e sai de lá com laudo de autismo", critica.
A pediatra observa que o cenário atual converteu o diagnóstico de autismo em tendência. "Tudo hoje é autismo. E não é verdade. Virou moda", aponta. Essa banalização prejudica especialmente as crianças que realmente necessitam de acompanhamento especializado, pois vagas e recursos se distribuem inadequadamente entre casos que demandam intervenção urgente e aqueles com diagnósticos duvidosos.
Os efeitos de um diagnóstico equivocado na infância ainda serão melhor compreendidos no futuro, mas a especialista alerta que rotular uma criança desde cedo pode influenciar negativamente seu desenvolvimento integral. Esse impacto psicológico e social não deve ser ignorado.
Cláudia é criadora e presidente do Projeto Ninho do Bebê, iniciativa que começou em 2017 em São José do Rio Preto (SP). O projeto surgiu justamente para oferecer atendimento integral e especializado a bebês de até 3 anos, reunindo profissionais de diferentes áreas da saúde. Essa abordagem multidisciplinar evita o atendimento fragmentado e oferece maior acolhimento às famílias, priorizando o desenvolvimento saudável desde os primeiros anos.
Durante o seminário em Cuiabá, a pediatra também abordou sinais precoces de atraso no desenvolvimento, os riscos do excesso de telas na primeiríssima infância e o papel fundamental da família nesse processo, temas essenciais para pais e profissionais de saúde em Mato Grosso.




