Um levantamento recente divulgado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), publicado na revista científica Ciência & Saúde Coletiva, apontou que cerca de 15 mulheres foram internadas diariamente em hospitais brasileiros entre os anos de 2008 e 2023 devido a agressões relacionadas à violência doméstica e familiar. Essas informações, também divulgadas pela Agência Patrícia Galvão, chamam atenção para a gravidade do problema.
A pesquisa destaca que a violência contra a mulher é mais do que atos isolados: ela costuma surgir gradualmente, iniciando com o controle sobre a aparência, amizades, redes sociais e finanças da vítima. Em seguida, intensifica-se para episódios de humilhações, isolamento social, ameaças e chantagens emocionais, transformando o ambiente doméstico, que deveria ser seguro, em zona de medo e insegurança.
Além disso, romper com uma relação abusiva não é algo simples. Muitas mulheres enfrentam dependência econômica em relação ao agressor, têm filhos, convivem sob ameaça de morte, compartilham bens, recebem manipulação emocional constante, ou vivem em isolamento social e vergonha, dificultando a saída deste ciclo de violência.
Em termos médicos, o politraumatismo — caracterizado pela presença simultânea de múltiplas lesões graves, como fraturas, traumatismos cranianos, lesões no tórax e abdômen, queimaduras e hematomas — é uma consequência comum da violência doméstica. Essas lesões podem causar sequelas permanentes e reforçam a necessidade de apoio especializado.
A Lei Maria da Penha representou um marco fundamental no Brasil ao tratar a violência doméstica como uma violação dos direitos humanos, desmistificando a ideia de que seria um assunto privado do casal. A legislação impôs ao Estado o dever de proteger as vítimas e agir para coibir esses crimes.
No entanto, a lei sozinha não é capaz de transformar esta realidade. É essencial que os serviços de saúde estejam capacitados para identificar sinais de violência, que as forças de segurança ofereçam atendimento adequado, e que a assistência social acolha meninas e mulheres vítimas de abuso. Além disso, é urgente que o sistema de Justiça responda com agilidade, enquanto governos estaduais e municipais precisam garantir centros de referência, casas de acolhimento, suporte psicológico e ações que promovam a autonomia financeira das mulheres.




