A indústria do açaí segue em expansão no Brasil, gerando importantes benefícios econômicos para a região Norte, mas deixando um desafio considerável: o destino adequado dos resíduos gerados no beneficiamento. Diante desse cenário, cientistas da Embrapa Agroindústria Tropical, em trabalho conjunto com a Universidade Federal do Ceará, descobriram uma forma inteligente de reaproveitar esses resíduos.
O caroço de açaí, que corresponde a aproximadamente 700 quilos para cada tonelada de fruta processada, foi convertido em um nanofertilizante especial denominado pontos quânticos de carbono. Esse material inovador demonstrou potencial significativo em experimentos de laboratório, estimulando o desenvolvimento de plantas de milho e sorgo.
Os números da produção de açaí no país são impressionantes. Em 2024, a colheita cultivada atingiu cerca de 1,7 milhão de toneladas, movimentando R$ 7,8 bilhões na economia brasileira. O Pará lidera essa produção de forma expressiva, contribuindo com 1,61 milhão de toneladas do total colhido. Além disso, a coleta de açaí silvestre alcançou 247,5 mil toneladas nesse mesmo período, gerando R$ 1,02 bilhão.
A exportação também avança significativamente. Empresas paraenses comercializaram aproximadamente 14,2 mil toneladas de produtos derivados do açaí no mercado internacional durante 2024. Apesar desse crescimento nas vendas externas, o consumo interno permanece como o principal destino da produção brasileira.
No processo de transformação do caroço em nanofertilizante, os pesquisadores utilizaram uma técnica chamada síntese hidrotermal. O pó do caroço é submetido a temperaturas e pressões elevadas, ocasionando a reorganização das moléculas em partículas microscópicas com aproximadamente quatro nanômetros de tamanho.
Os resultados dos testes com esse material foram promissores. Uma solução contendo dez miligramas do nanofertilizante por litro de água promoveu aumento de 24% no crescimento relativo das plantas de milho e 164% no do sorgo. O volume das raízes também se expandiu significativamente: 23% no milho e 59% no sorgo, comparado com plantas que não receberam o tratamento.
Convém ressaltar que esses números refletem o desenvolvimento das plantas em condições experimentais de laboratório. Os cientistas avaliaram especificamente o crescimento vegetativo, não a produtividade final em termos de grãos colhidos por hectare. Os experimentos envolveram a variedade de milho BRS Gorutuba e o sorgo 2502, ambos materiais de ciclo curto especialmente adequados para cultivo no Semiárido.
Esses nanofertilizantes funcionam de forma diferenciada em relação aos fertilizantes convencionais. Suas partículas conseguem penetrar nos tecidos das folhas e transportar nutrientes para o interior das células vegetais. Também possuem a capacidade de absorver radiação ultravioleta e emitir luz azul, propriedades que podem favorecer processos biológicos nas plantas.
O desenvolvimento de raízes mais robustas é especialmente valioso para regiões como o Semiárido, onde a disponibilidade de água no solo representa frequentemente um fator limitante. Um sistema radicular mais desenvolvido permite melhor exploração do solo e maior absorção de água e nutrientes pelas plantas.




